Prebióticos do leite materno: como eles funcionam?

10 Abril, 2020
Os prebióticos do leite materno são açúcares complexos que funcionam como alimento para uma elite de bactérias que beneficiam a saúde da criança.
 

Geralmente conhecemos como prebióticos os compostos de fibras solúveis que, uma vez ingeridos, não podem ser digeridos à medida que passam pela parte superior do trato gastrointestinal. Posteriormente, quando os prebióticos chegam ao intestino grosso, as bactérias ali residentes, que conseguem processar essas fibras, as utilizam como fonte de energia. Como resultado, os prebióticos estimulam o crescimento de colônias de bactérias do cólon.

Não devemos confundir prebióticos com probióticos

Como os próprios nomes sugerem, prebióticos e probióticos estão relacionados, mas é importante entender como eles se distinguem. Por definição, os probióticos são microrganismos vivos que exercem uma influência positiva sobre a saúde. Entre eles, estão os lactobacilos e bifidobactérias (ambos do grupo de bactérias chamadas de ácido-láticas) e os saccharomyces (um gênero de leveduras).

Por outro lado, os prebióticos não são bactérias, mas sim compostos que fornecem a fonte de alimento para que os probióticos possam viver e se proliferar no seu nicho, o cólon. Ou seja, os prebióticos são substâncias que funcionam como alimento para os organismos probióticos.

 
Prebióticos do leite materno: moléculas em destaque

Por que as bactérias que residem nos nossos intestinos são importantes?

Primeiramente, elas são muito numerosas. As bactérias compõem a maior parte da flora no cólon, representando mais da metade da massa seca das fezes.

Por outro lado, a sua composição é muito variável. A microbiota intestinal é composta por mais de mil espécies. No entanto, reconhece-se que, em cada pessoa, exista uma predominância numérica de cerca de 30 ou 40 espécies.

Sua importância reside no fato de que esse imenso número de microrganismos compõe um ecossistema extraordinariamente maduro, resistente à indução de mudanças vindas do exterior. Esse equilíbrio é o que é chamado clinicamente de ‘homeostase intestinal’.

A exposição a antibióticos, infecções entéricas ou alterações na dieta pode alterar essa homeostase. Existem evidências que associam o desequilíbrio da microbiota intestinal a uma longa lista de doenças. Na busca para restabelecer esse equilíbrio, prebióticos e probióticos são ingeridos e, em casos graves, são realizados transplantes fecais.

 

O leite materno é rico em prebióticos e probióticos

Atualmente, a ciência reconhece que o leite materno é insubstituível como fator de iniciação, desenvolvimento e composição da microbiota intestinal da criança.

É um fato ainda pouco relatado que o leite contém um número significativo de bactérias ácido-lácticas que a mãe ‘doa’ para o bebê, para iniciar a colonização do intestino. Estima-se que a criança ingira cerca de 800 mililitros de leite por dia, recebendo entre 100 mil e 10 milhões de bactérias diariamente.

Como se isso não bastasse, as glândulas mamárias possuem um mecanismo que lhes permite produzir um extraordinário repertório de compostos prebióticos, que são chamados de oligossacarídeos. A ingestão conjunta de probióticos e prebióticos é uma estratégia vencedora da natureza para promover as “boas bactérias” para colonizar o intestino do bebê.

Os carboidratos do leite podem consistir em uma única molécula de açúcar: os monossacarídeos. Por exemplo, glicose, galactose e frutose. Os oligossacarídeos são formados por cinco tipos de monossacarídeos ou “blocos” concatenados, que são combinados aleatoriamente para formar estruturas lineares ou com ramificações de tamanhos variados.

 
Prebióticos do leite materno: mãe amamentando

Fatos surpreendentes sobre os prebióticos do leite materno

O efeito proliferativo que o leite exerce sobre as bactérias ácido-lácticas não está relacionado a uma única substância, mas sim obedece a diferentes fatores. Em particular, efeito prebiótico do leite foi atribuído à baixa concentração de proteínas e fosfatos, à presença de lactoferrina, lactose, nucleotídeos e oligossacarídeos.    

O real papel prebiótico de cada uma dessas substâncias ainda não está claramente definido, com exceção dos oligossacarídeos, o grupo mais estudado.

Mesmo assim, não se sabe o que determina que o enorme repertório de oligossacarídeos varie de uma mulher para outra e também na mesma mulher, entre uma fase da amamentação e outra. Estima-se que o número aproximado de oligossacarídeos possa variar de cerca de 150 compostos a centenas de milhares. Dentro desse universo, sabe-se que há uma predominância da série dos galacto-oligossacarídeos (GOS).

 

Funções adicionais fornecidas pelos oligossacarídeos do leite materno

O repertório de oligossacarídeos do leite é inimitável. Vários estudos mostraram que esses compostos, além de serem “alimento para bactérias”, também podem desempenhar outras funções:

  • Podem enganar vírus e bactérias patogênicas: existem variantes que imitam os oligossacarídeos da parede intestinal, mais precisamente aqueles que os patógenos usam para invadir as células saudáveis. Quando o patógeno se liga a essa isca, a infecção é evitada.
  • Também podem regular a ativação das células imunológicas.