Abuso verbal: uma forma de violência infantil

08 Abril, 2018
A violência não é exercida apenas através de uma surra. As palavras também podem ter um efeito devastador na autoestima e no desenvolvimento das crianças. Os pais devem estar cientes disso para evitar ao máximo a violência em casa.

A educação das crianças é um desafio para todos os pais. Por mais difícil que seja essa tarefa, de modo algum a violência pode ser usada como um método para ensinar. A má instrução e o mau caráter de muitos adultos tornam o abuso verbal a forma mais comum de violência infantil.

Quando se fala em violência infantil costuma-se imaginar tapas, beliscões e punições dolorosas aos pequenos. No entanto, existem ações muito mais sutis, que podem até passar despercebidas. Elas atrapalham o desenvolvimento emocional e a autoestima de uma criança.

Os pais que não sabem “controlar” seus filhos ou não conseguem achar uma maneira de fazê-los entender o que é certo e o que é errado recorrem ao desprezo, à subestimação e até a insultos para impor a sua autoridade e ensinar. Mesmo que esse jeito seja o pior método.

Apesar do passar dos anos e dos grandes avanços da civilização humana, ainda não conseguiram diminuir a forma de violência infantil que é o abuso verbal. Pelo contrário, o abuso verbal ainda está presente em muitos momentos da vida cotidiana.

Por que o abuso verbal é uma forma de violência infantil?

Em 20 de novembro de 1989, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança. É um documento de 54 páginas que se tornou o tratado de direitos humanos mais aceito no mundo. Muitos países aderiram às suas leis e até mesmo às suas constituições.

Esta Convenção estabelece que crianças e adolescentes são indivíduos com direitos, merecedores de respeito, dignidade e liberdade. Além disso, se revoga a concepção arcaica da criança como objeto passivo de intervenção por parte da família, do Estado e da sociedade.

A Convenção Internacional dos Direitos da Criança posiciona as crianças como detentoras de todos os direitos que os adultos possuem, acrescentando outros direitos especiais devido a sua condição especial de pessoas em desenvolvimento

O abuso verbal é uma forma de desrespeitar as crianças e atentar contra a sua dignidade. Isso é considerado uma violação da lei nos 195 países que fazem parte da ONU.

O abuso verbal acontece no dia a dia

As formas mais comuns de abuso verbal

As palavras podem doer tanto ou mais do que uma pancada. Os efeitos permanecem nas mentes dos pequenos, já que consideram as figuras paternas como modelo de sabedoria e ensinamento. Esta situação pode levar ao pensamento “se o meu pai ou a minha mãe disser que eu não faço nada direito, deve ser verdade”.

O abuso verbal é considerado uma forma de violência infantil que causa sofrimento emocional. A Equipe Diocesana da Criança e do Adolescente (Equipo Diocesano de Niñez y Adolescencia – EDNA), uma associação argentina que promove os direitos da criança, classifica a violência verbal em duas maneiras:

1.- Violência verbal ativa

Inclui a falta de respeito, o insulto, a exigência excessiva, e a falta de compreensão. A violência verbal ativa se manifesta em frases como:

  • “Você não serve para nada”
  • “Você é burro! Não entende o que estou explicando?
  • “Para que serve a sua cabeça, parece que você pensa com os pés”
  • “Você já é grande, já cansei de você”
  • “Estou cansado de dizer as mesmas coisas o tempo todo”
  • “Você é tão idiota quanto seu pai/mãe”
  • “Você vai ver quando chegarmos em casa”

2 .- Violência verbal passiva

Inclui a indiferença, a falta de amor e o desinteresse. Pode causar distúrbios sérios, como a chamada depressão anaclítica.

Consequências do abuso verbal

Infelizmente, o abuso verbal se tornou uma maneira de “educar” que muitas vezes é aceita como comum pela sociedade. Sempre alguém vai ter uma história como “quando eu era criança os meus pais me batiam com cinto para que eu me comportasse”.

A aceitação da violência sem refletir criticamente sobre seus possíveis efeitos é uma das piores atitudes que a sociedade pode ter.

Essa atitude pode causar sérios problemas na estabilidade emocional da criança, como: ferir a sua autoestima, acabar com a sua vontade e capacidade de se relacionar com os demais, sentimento de insegurança e medo diante dos pais – que deveria inspirar exatamente o oposto – e o sentimento de culpa por não conseguir atender às suas exigências.

Pais que usam o abuso verbal para educar acabam com a autoestima dos filhos

Como evitar o abuso verbal?

O EDNA recomenda as seguintes ações para tornar o abuso verbal uma forma de violência infantil do passado:

  • Não diminua a autoestima da criança. Valorize as suas conquistas e incentive o desejo de melhorar.
  • Seja um bom exemplo. As crianças observam e absorvem tudo. Portanto, se elas veem que os pais resolvem seus problemas com gritos, ameaças e violência física, no futuro eles vão fazer a mesma coisa com os demais e com a sua família.
  • Converse com o seu filho. Lembre-se sempre de que ele é uma criança e, portanto, tem muito a aprender. Como nem sempre ele vai se comportar bem, é preciso conversar para explicar por que determinado comportamento é errado ou certo.
  • Não exija demais. Se há algo que destrói a autoestima de uma criança é não ser capaz de corresponder às expectativas dos pais. Por isso, incentive o seu filho a ser sempre um pouco melhor, mas para o seu próprio desenvolvimento, e não para competir e ter que ganhar sempre.

Nos últimos anos, muitas campanhas de conscientização têm tido como objetivo eliminar completamente o abuso verbal. Portanto, se você testemunhar qualquer situação na qual identifique uma situação como essa, tente alertar os envolvidos para evitar estragos maiores.

  • Arruabarrena, M. I., & De Paul, J. (1996). Maltrato a los niños en la familia: evaluación y tratamiento. Ediciones Pirámide.
  • Arruabarrena, M. (2011). Maltrato psicológico a los niños, niñas y adolescentes en la familia: definición y valoración de su gravedad. Psychosocial intervention, 20(1), 25-44. http://scielo.isciii.es/scielo.php?pid=S1132-05592011000100004&script=sci_abstract&tlng=en
  • Stamateas, B. (2014). No me maltrates: cómo detener y poner límites al maltrato verbal. B DE BOOKS.