A mistura de sentimentos após um aborto espontâneo

· 2 de junho de 2018
Uma gravidez vai muito além da biologia e da ciência médica. Pouco por pouco, é construída uma relação muito especial em torno da futura mãe e do bebê, com expectativas e ilusões. Mas como a mulher reage diante de um aborto espontâneo?

Lidar com os sentimentos após um aborto espontâneo não é uma tarefa simples. O luto, a impotência, o estresse e a perda da autoestima fazem parte desse momento difícil que as mulheres que passam por essa situação têm de enfrentar.

As perdas dos gestacionais podem ser tão duras quanto a perda de um filho. Na nossa cultura, não há nenhum rito associados com este tipo de dor, o que torna mais difícil lidar com o efeito emocional. Obviamente, nós estamos diante de um tema que é um tabu.

Essas situações desagradáveis, muitas vezes, geram um trauma para as mulheres que as vivem. Muitas vezes, os membros da família não sabem muito bem o que fazer para ajudar as pessoas que passam por esse tipo de experiência.

Aborto espontâneo: uma vida única que foi perdida

Sofrer um aborto natural é perder um ser único e inigualável que nós nunca iremos recuperar. Essa é a grande verdade que acontece com as pessoas que passaram por essa situação difícil.

Dessa forma, quando os familiares e os amigos dão conselhos para as pessoas afetadas, geralmente fazem um discurso positivo que não vai muito de encontro com o sentimento da mulher naquele momento. Infelizmente, o problema não se trata de simplesmente tentar ter um outro bebê. 

Para dizer a verdade, ter uma vida que está sendo gerada dentro de nosso corpo marca uma relação única entre a mãe e o futuro bebê. Em torno dessa nova vida, são traçados planos e expectativas únicas. A gestação não se trata simplesmente de um processo biológico ou de interesse médico.

mulher que sofreu borto

A síndrome pós-aborto

A síndrome pós-aborto é um conceito no qual se juntam as sequelas psicológicas de uma perda gestacional. Os psicólogos compreendem que esse é um dos processos mentais mais complexos aos quais o ser humano pode ser submetido.

Hoje em dia, existem dois tipos diferentes de sintomas produzidos por essa síndrome: os psicológicos e os somáticos. Estes últimos têm a ver com as manifestações corporais da perda ou da depressão: vômito, perda de peso, dor abdominal ou cefaleia, entre outros.

A nível psicológico, os seus efeitos são muito mais complexos. As sensações vão desde o sentimento de culpa até a hostilidade. Também se sente tristeza, estresse, insônia, perda de motivação, manifestações autodestrutivas e diminuição do apetite sexual.

“Quando você sofre um aborto espontâneo, o problema não se trata de apenas tentar ter outro bebê”.

A complexidade dos sentimentos após um aborto espontâneo

Parte dos problemas emocionais relacionados aos abortos espontâneos encontra-se nas diferentes fases que o indivíduo experimenta durante o seu sofrimento. Eles podem surgir de forma variada e sem seguir uma ordem específica; você pode começar com o sentimento de culpa e em seguida passar por diversas outras sensações diferentes.

É importante ter em mente que os sentimentos depois de um aborto espontâneo não são apenas complicados para a mãe. O pai também experimenta um luto interior próprio que trará graves complicações emocionais. Entre outras coisas, isso poderá gerar dificuldades entre o marido e a mulher.

Deve-se acrescentar também o componente social que cerca toda essa problemática. A perda gestacional afeta cada âmbito da vida daqueles que são atingidos por ela. A maioria das pessoas não sabem como ajudar os afetados pelo aborto espontâneo e alguns comentários podem ter um impacto negativo.

mulher triste

Complicações próprias da síndrome pós-aborto

  • Não ser capaz de definir o que se sente: os sentimentos gerados após um aborto espontâneo estão a todo momento mudando e, por isso, é difícil saber abordá-los corretamente.
  • Ver o feto após o aborto: os pais afetados não sabem se devem ou não ver o bebê quando ele já faleceu.
  • Falar sobre o incidente: o casal deve decidir se quer ou não falar sobre a sua perda. Nem sempre os dois lados vão concordar sobre tocar no tema e a maneira em que irão fazê-lo.
  • Falta de entendimento sobre a dor dos pais: há algumas frases de consolo que os amigos e os parentes proferem, pois negam o sentimento dos progenitores. Por exemplo: “Vocês são jovens e podem tentar ter um outro bebê”.

O ideal é que os pais vivam um luto ativo e completo, isso permite que eles aliviem as dores e façam uma reflexão; por essa razão, os parentes devem ter muito cuidado com o que dizem e devem respeitar o dor dos pais.

Também pode ajudar fazer uma visita a um psicólogo que pode auxiliar os pais a lidar com as emoções e compreender o que está acontecendo. Os casais devem procurar formas para viverem o seu sofrimento e para se apoiarem um no outro a todo o momento; na prática, a comunicação será fundamental.