Luto perinatal: O sofrimento de uma mãe

· 17 de novembro de 2016

Desde que sua barriga se transformou num berço, você morre de amores e a ansiedade impera. Mas, muitas vezes, a vida nos dá bofetadas difíceis de superar. Esse é o caso de quem enfrenta o luto perinatal, uma perda que transcende a simples estatística e implica uma vivência profundamente dolorosa para a mãe.

A morte do feto durante a gravidez é um tema delicado já que desencadeia dores e sentimentos que são subjugados e dão lugar a transtornos psiquiátricos. Conhecer as consequências do luto perinatal a partir da perspectiva dos progenitores é útil para compreender qual o sentido que se atribui a essa perda.

Por isso, neste artigo trataremos daqueles aspectos que transformam o luto perinatal no sofrimento mais doloroso de qualquer mãe e que ainda são desconhecidos ou ignorados pelas pessoas que nunca enfrentaram tamanha perda.

Luto perinatal: o que é?

Luto perinatal e gestacional são termos que se referem à morte de um filho durante o período que inclui a concepção, o parto e a primeira semana de vida do bebê.

Só de pensar nessa situação o sangue gela nas veias. Infelizmente esse tipo de perda tende a ser ignorado ou silenciado pelas pessoas à volta, pois não dão muita importância ao ocorrido quando, na verdade, é um luto tão doloroso e inexplicável como qualquer outro.

Por isso, o luto perinatal costuma ser enquadrado na categoria dos “lutos não autorizados”. Por trás desses dolorosos gritos silenciosos, os números mostram que se trata de uma realidade frequente: por ano, são registrados 10.265 abortos. Um fato sem importância, exceto para os pais que planejaram uma vida junto desses bebês.

Luto Perinatal: Detalhes dolorosos que muitos ignoram

Quando o filho morre dentro do ventre materno, muitos progenitores recebem a notícia no momento do ultrassom. O profissional lhes dá a notícia e em seguida os deixa a sós. Logo virá uma das partes mais chocantes: “a entrega” do bebê, sobre a qual os pais não têm opção de escolher como fazer.

O pior é que não existe legislação a respeito dessa prática em nenhuma parte do mundo, por isso às vezes o convênio médico dá as costas e se recusa a cobrir determinados serviços ao bebê falecido. Além disso, se os pais não têm dinheiro para pagar uma empresa funerária, ele se transforma em resíduo hospitalar.

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Outra questão bastante triste para toda mãe que lida com o luto perinatal é que, como a criança nasceu morta, não tem direito a receber nome nem sobrenome, sendo considerada “sem nome”. E o que é pior: seu atestado de óbito é emitido no nome da mãe. Um paradoxo cruel, morta em vida.

O que muitos pais consideram mais doloroso? Internar a mãe do bebê na maternidade, onde ela ficará em contato com muitas situações que trarão sofrimento, como o choro de outros bebês, e estará inserida em um ambiente marcado pela alegria alheia enquanto tudo o que vê é cinzento.

A Espanha figura como um caso exemplar. Mesmo que existam maternidades mais novas que continuam ignorando essa situação, em hospitais mais avançados foram criados o “espaço do luto” no andar da maternidade, a fim de evitar o contato de pais que tiveram seus bebês com aqueles que acabam de perder seus filhos.

Superar o luto perinatal

No luto perinatal, a vida e a morte convivem em um mesmo processo, deixando um espaço vazio de recordações. Os especialistas recomendam a escolha de um espaço, para ajudar no preenchimento dessas recordações, uma caixa, por exemplo, onde se possa reunir coisas que lembrem seu filho: ultrassonografias e objetos simbólicos que comprovem o luto e confortem sua dor.

Outros especialistas ressaltam a importância de realizar uma cerimônia de despedida. Mesmo que nesses casos algumas vezes não seja possível realizar o funeral ou o enterro, é possível preparar um ato simbólico de despedida. Você pode ir a um lugar especial, escrever algo significativo ou realizar um gesto representativo, como plantar uma árvore.

Em relação a um luto minimizado pelo ambiente ao redor, cada progenitor precisa refletir para tentar compreender de que maneira pode colocar em gestos ou palavras a sua dor a fim de suportar e superar o luto. Muitas vezes, a mãe é medicada em excesso com medicamentos que podem impedir ou retardar seu período de luto.

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O despertar da sociedade

Você sabia que milhões de bebês morrem todo ano no mundo deixando milhões de famílias desoladas? Inclusive, segundo dados estatísticos, os números de casos de morte intrauterina superam os de morte por HIV e malária juntos. As perdas provocadas pelo luto perinatal, por sua vez, produzem efeitos psicológicos que podem durar décadas.

Você sabia que, mesmo atualmente, ainda não há um trabalho de conscientização da sociedade sobre a morte perinatal? Por isso, ninguém fala sobre os bebês que morrem no ventre materno. Qualquer luto é um processo natural que ocorre após uma perda, mas o luto perinatal apresenta características específicas, que o torna diferente.

Entretanto, são lutos não autorizados, ignorados e minimizados. Isso significa que, em muitas ocasiões, os lutos perinatais ou gestacionais não são publicamente reconhecidos nem socialmente expressados. O despertar da sociedade irá acontecer quando não houver mais gritos surdos nem lutos em silêncio.