Técnicas para desenvolver a criatividade da linguagem de acordo com Rodari

14 Dezembro, 2020
O livro Gramática da Fantasia, de Gianni Rodari, é uma boa alternativa para desenvolver a criatividade da linguagem graças às múltiplas técnicas que ele propõe. Que tal descobri-las?

É necessário desenvolver a criatividade da linguagem, brincar com as palavras, aproximar-se delas sem medo, abordando a natureza fonológica e semântica e suas possibilidades sintáticas. Para Rodari, desenvolver a fantasia e a capacidade de se comunicar dá às crianças a capacidade de se defenderem.

Técnicas de Gianni Rodari para desenvolver a criatividade da linguagem

Gianni Rodari, professor, pedagogo e escritor italiano, ensina alguns dos seus recursos criativos para contar histórias e brincar com as palavrasEle nos ensina como desenvolver a criatividade da linguagem dos nossos filhos.

Rodari começou a escrever para crianças em 1950. Publicou mais de vinte livros nos quais combina com maestria o humor e a imaginação com uma visão irônica do mundo atual. Em 1970, recebeu o mais importante prêmio concedido à literatura infantil: o Hans Christian Andersen de Literatura.

No seu livro Gramática da Fantasia: Introdução à Arte de Inventar Histórias, Rodari propõe várias formas de inventar histórias para crianças e de ajudá-las a inventarem histórias por conta própria.

Brincar com as palavras e contar histórias

A seguir, veremos algumas das técnicas de Rodari a esse respeito. O objetivo dessas técnicas é despertar e desenvolver a criatividade da linguagem, bem como a imaginação e a fantasia das crianças e daqueles não tão jovens assim.

Técnicas para desenvolver a criatividade da linguagem de acordo com Rodari

A pedra no pântano

Rodari parte da ideia de que “uma palavra lançada ao acaso na mente produz ondas superficiais e profundas”, e provocaria associações, sons, imagens, lembranças, fantasias… Trata-se, portanto, de propor uma palavra para as crianças e trabalhar com os conteúdos sugeridos por ela.

Ele toma como exemplo a palavra “pedra” que sugere palavras que:

  • Começam com “p”, tais como pai, papel, panela, palavra…
  • Começam com “pe”, tais como pena, peso, pêssego, pêndulo
  • Rimam com “pedra”, tais como medra, lerda, cerda
  • Estão relacionadas semanticamente: calhau, rebo, seixo, cascalho
  • Usos e utilidades de pedra.
  • Palavras com o acróstico de pedra:

P: pequenos.

E: elefantes.

D: dormiam. 

R: roncando.

A: alto.

Uma vez que essas possibilidades forem trabalhadas, podem surgir bons textos, desde que a sua imaginação tenha sido estimulada. As crianças também podem contar histórias ou sensações produzidas pela palavra.

Binômio fantástico

Duas palavras devem ser escolhidas ao acaso, sendo necessária uma certa distância entre essas palavras. Uma delas precisa ser estranha o suficiente para a outra e a sua aproximação discretamente incomum para que a imaginação possa criar um parentesco entre elas. Alguns binômios podem ser: tijolo-canção, chapeuzinho-helicóptero, luz-sapatos, cachorro-armário.

Por meio desses binômios, é possível estabelecer relações entre as palavras vinculando-as a uma preposição e aos artigos correspondentes. Assim, serão obtidas as diferentes formas:

  • O cachorro no armário.
  • O armário do cachorro.
  • O cachorro em cima do armário.

Cada uma dessas formas oferece o esboço de uma situação fantástica com a qual podem ser criadas grandes histórias.

O que aconteceria se…?

As hipóteses, escreveu Novalis, são como redes: “você joga a rede e, mais cedo ou mais tarde, encontra algo”. Essa é uma técnica muito simples, cujo formato é justamente a pergunta: “O que aconteceria se…?”.

Para formular a pergunta, um sujeito e um predicado são escolhidos aleatoriamente. A união de ambos vai fornecer a hipótese sobre a qual trabalhar. “O que aconteceria se um elevador descesse até o centro da terra? Ou se subisse até a lua? ou O que aconteceria se um crocodilo batesse na sua porta pedindo sal?”…

Técnicas para desenvolver a criatividade da linguagem de acordo com Rodari

O prefixo arbitrário

Deformar as palavras é uma maneira de torná-las produtivas, em um sentido fantástico, é claro. O espírito desse jogo é o uso de um prefixo arbitrário. Por exemplo, basta o prefixo des- para transformar uma navalha, um objeto cotidiano e perigoso, em uma desnavalha, um objeto fantástico e pacifista, que não serve para apontar os lápis, mas para fazê-los crescer quando estiverem gastos.

Uma opção para usar o prefixo arbitrário é fazer tabelas de prefixos e substantivos, combiná-los aleatoriamente e depois fazer com que as crianças definam a palavra e contem histórias.

“Em primeiro lugar, escreve quem sente a necessidade de ordenar os acontecimentos que observa e de dar sentido à vida. Mas ambos são inúteis se ao mesmo tempo isso não for acompanhado pelo amor às próprias palavras e pela vontade irreprimível de brincar com elas”.

– Aldous Huxley –

O erro criativo

Uma história pode nascer de um lapso. O erro ortográfico bem aproveitado pode levar a todos os tipos de histórias engraçadas e instrutivas. Se uma criança escrever em seu caderno “obseção”, temos a opção de corrigir o erro ou de seguir a sua sugestão provocante e escrever a história e as propriedades de uma repartição pública cheia de seções estranhas, como a obseção (uma seção obstruída), a deseção (uma seção destruída) e a antisseção (uma seção contra seções).

Velhos jogos

Podemos criar temas e histórias fantásticas por meio de jogos tão simples quanto recortar as manchetes dos jornais e embaralhá-las para obter notícias de eventos absurdos, sensacionais ou simplesmente engraçados.

  • A cúpula de São Pedro ferida com uma faca foge para a Suíça com o dinheiro.
  • Grave acidente na A2 entre um tango e outro em homenagem a Gaspar de Jovellanos.

É possível compor poemas inteiros apenas com uma tesoura e um jornal. Talvez sem sentido, porém encantadores. Outro jogo difundido pelo mundo é o dos papéis com perguntas e respostas, que começa a partir de uma série de perguntas e, por outro lado, uma série de respostas que são unidas ao acaso.

Chapeuzinho Vermelho no helicóptero

As crianças recebem algumas palavras com as quais devem inventar uma história. Cinco palavras formam uma série e sugerem a história de Chapeuzinho Vermelho: menina, floresta, flores, lobo, avó, mas a sexta quebra a série (helicóptero)Com essa nova palavra, elas vão conhecer o prazer de inventar. O mesmo pode ser feito com qualquer outra história.

Técnicas para desenvolver a criatividade da linguagem de acordo com Rodari

As fábulas ao contrário

Invertendo as histórias de propósito. Por exemplo:

Chapeuzinho Vermelho é malvada e o lobo é bom…

Ou Pequeno Polegar quer fugir de casa com os irmãos, abandonando os pobres pais, que têm a esperteza de fazer um buraco em seu bolso antes de enchê-lo de arroz, que depois fica espalhado pela estrada durante a fuga. Como na história real, mas vista pelo espelho, transformando a esquerda em direita e vice-versa.

O que acontece depois

Mesmo que a história acabe, sempre existe a possibilidade de um depois. Os personagens estão prontos para agir, conhecemos o seu comportamento, sabemos quais são as relações entre eles… A simples introdução de um novo elemento põe todo o mecanismo em movimento. Quem nunca escreveu ou imaginou continuações de Pinóquio ou Cinderela?

Salada de fábulas

Algumas histórias se misturam com outras, combinando personagens, cenários, eventos… Por exemplo, Chapeuzinho Vermelho encontra o Pequeno Polegar ou então o Gato de Botas, com seu jeito peculiar, ajuda João e Maria.

Em suma, conforme você pode ver, são muitas as técnicas sugeridas por Gianni Rodari em sua obra para desenvolver a criatividade da linguagem de crianças e adultos. Então, o que você está esperando para colocá-las em prática com os seus pequenos e passar momentos divertidos, lúdicos e educativos em família?