Criptofasia: a língua secreta falada pelos gêmeos

· 17 de julho de 2017

É muito fofo escutar os bebês falarem nas suas próprias línguas, e que não conseguimos entender nada. No caso dos gêmeos, é duplamente emocionante. Mas, eles parecem se entender entre si. De acordo com as pesquisas, os irmãos gêmeos realmente se entendem, e mais, compartilham um idioma secreto conhecido como Criptofasia.

Há mais de quarenta anos, os pesquisadores tiveram que enfrentar o desafio de interpretar o caso das gêmeas Grace e Virginia Kennedy. Essas irmãs nascidas nos Estados Unidos estavam sendo criadas pela avó, que era alemã. Ao que parece, as meninas não tinham aprendido a falar inglês até os 6 anos de idade. No entanto, pareciam falar entre elas uma língua incompreensível.

Conforme a observação feita pelos familiares e especialistas, se tratava de um “idioma”, pelo que parece, bastante complexo. Então, a notícia causou um rebuliço; as gêmeas tinham inventado uma língua secreta. Os especialistas ficaram encantados com a aparente descoberta.

A Criptofasia, como foi chamada mais adiante, foi pesquisada como se fosse qualquer outra língua ou cultura desconhecida. Os linguistas começaram a identificar as regras gramaticais e sintáticas desenvolvidas nessa “língua”. Vamos ver como essa história continua.

A descoberta da criptofasia

Os pesquisadores continuaram estudando mais a fundo a linguagem das meninas. Nessa tarefa esbarraram com a dificuldade de falar com eles porque elas não tinham recebido estímulo por parte dos pais delas. Não tinham contato com a sociedade e mentalmente estavam isoladas também. De forma equivocada, foi detectado nelas, quando eram bebês, deficiência mental. Por esse motivo não receberam maior estímulo.

Seus pais não as levaram à escola e pouco saíam de casa. Grace e Virginia passavam a maior parte do tempo com a avó delas, que somente se comunicava com elas em alemão. Quando os pesquisadores linguistas se aproximaram delas, finalmente foi diagnosticado nelas um quociente intelectual normal.

Como consequência do isolamento delas, as meninas se viram obrigadas a se comunicar entre elas. Estavam isoladas do mundo exterior, não tinham a companhia de crianças ou adultos, mas tinham contato com a língua inglesa, em outras palavras, no ventre materno escutaram a mãe falar em inglês e desde os seus isolamentos também escutavam essa língua.

Dadas as circunstâncias, os linguistas concluíram que, na verdade, o “idioma próprio” não era exatamente algo criado por elas. Tratava-se de uma construção com base em palavras em inglês. Assim, uniam, por acaso, palavras da língua materna delas para poder se comunicar. Eram frases e palavras com má pronúncia, carentes de sintaxe ou gramática, por isso a clara falta de coerência.

As meninas foram ajudas para que conseguissem aprender o idioma. Começaram a falar o melhor que podiam, mas nunca alcançaram a fluidez normal. No entanto, ajudaram a fazer com que se entendesse que a Criptofasia pode se produzir entre gêmeos porque o nível de desenvolvimento entre  eles é semelhante.

Ao que parece, todas as crianças fazem essa construção linguística. Os bebês usam palavras mal pronunciadas, têm deficiência sintática e gramatical, só que não podem melhorar porque ainda estão se desenvolvendo.

A fala dos bebês

Qualquer bebê é capaz de desenvolver sua própria língua, quer dizer, um conjunto de expressões que só ele entende. Porém, no caso dos gêmeos, essa língua pode evoluir devido à compreensão que existe entre eles. Encontram-se no mesmo nível de desenvolvimento e existe entre eles uma comunicação superior que vem desde o ventre materno.

Os gêmeos falam entre si por meio da Criptofasia até o momento que continuarem se compreendendo mutuamente. De alguma forma, todos fomos testemunhas de como os bebês falam. Contudo, esse tipo de comunicação não vai adiante porque socialmente existe um obstáculo, porque ninguém além deles entende essa língua. Consequentemente, os gêmeos criptofásicos acabam deixando de usar esse sistema linguístico porque não permite mais a comunicação, isso acontece por volta dos três anos de idade.

O tempo que os gêmeos passam juntos lhes permite criar esse código. No entanto, sabe-se que qualquer criança, jovem ou adulto pode criar sistemas secretos semelhantes a esses. Por meio dessa língua podem excluir os demais, para que seja algo íntimo. No caso das gêmeas Kennedy, o desenvolvimento da língua própria foi maior por causa do pouco contato social que tinham, ou seja, não houve pressão para que deixassem de se comunicar dessa maneira.

A Criptofasia ocorre em pelo menos na metade da população de gêmeos, isso inclui também os gêmeos não idênticos. A maioria dos casos identificados nos estudos revelam ser uma combinação de palavras mal pronunciadas de sua própria língua materna.

Qualquer bebê a desenvolve enquanto não assimilar a língua padrão, mas entre os gêmeos se fortalecem os erros. Felizmente para nossos filhos, embora seja um problema para Grace e Virginia, essas construções não afetam o desenvolvimento da língua materna.