O desamparo aprendido: o vínculo de sofrimento

25 Agosto, 2018
Se quando somos crianças nos educam na obediência por meio do medo, na carência afetiva, na insegurança ou na frustração cotidiana, seremos criaturas terrivelmente vulneráveis e incapazes de dar voz aos nossos direitos como uma pessoa.

O desamparo aprendido é a rendição absoluta diante os problemas da vida. É possível que o termo “desamparo aprendido” não seja conhecido por muitos.

No entanto, é um aspecto que vemos todos os dias. Por exemplo, pessoas que desenvolvem depressão porque não conseguem reagir ao colega de trabalho agressivo e mal-intencionado. Ou também mulheres que não se impõem, se calam e aguentam a violência marido.

Vemos muito frequentemente nas escolas, com as crianças vítimas de bullying dia após dia. Tudo isso nos obriga a nos perguntar como mães, pais ou educadores se estamos fazendo algo de errado. Mas como conseguir que uma criança cresça em segurança, sem medos e com estratégias pessoais adequadas para se defender das injustiças do seu ambiente mais próximo?

Neste artigo, lhe mostramos todas as questões sobre esse assunto tão importante na criação dos nossos filhos.

O desamparo aprendido, uma pandemia social

Podemos estar errados, mas o desamparo aprendido é uma verdadeira pandemia cotidiana. Não sabemos nos defender, não podemos, e inclusive chegamos a pensar que também não merecemos. É nesse momento em que todos, adultos e crianças, chegam ao ponto em que tomam plena consciência de que não têm controle nenhum sobre suas vidas. Assim, essas pessoas acabam caindo no mais profundo desânimo.

desamparo aprendido

Martin Seligman foi o responsável por esse termo depois de observar o comportamento de muitos animais, que no geral definem perfeitamente o papel de vítima. O desamparo aprendido se desenvolve através de três dimensões básicas:

  • Motivacional. Quando a pessoa deixa de ter motivações próprias e desejos pessoais, e é influenciada pelos desejos dos outros.
  • Emocional. Ao se tornar consciente das situações adversas e de que a dor vai continuar existindo não importa o que faça, ela acaba se rendendo a uma tristeza assumida, na qual não há escapatória.
  • Cognitiva. Os adultos e as crianças caracterizados pelo desamparo aprendido costumam ter pensamentos muito negativos. Eles não são capazes de estabelecer resoluções adequadas para os seus problemas e, assim, quase sempre desenvolvem depressão.

Famílias que provocam o desamparo aprendido em seus filhos

Começaremos contando uma coisa importante: não existem receitas mágicas e infalíveis na hora de educar e dar ao mundo filhos fortes. Ou seja, crianças hábeis que são capazes de se defender de forma assertiva para construir sua própria felicidade. Cada criança é única e depende de nós saber satisfazer as suas necessidades. No entanto, existem pontos-chave com os quais devemos nos preocupar para que a sementinha do desamparo aprendido não se desenvolva.

Estas, sem dúvida, seriam as principais causas que podem provocar o desenvolvimento do desamparo aprendido:

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Educação baseada no medo

  • Esse é o ponto principal que define as crianças que desenvolvem o desamparo aprendido. Quando há medo, há submissão. Nesse caso, somente são desenvolvidas duas capacidades: a fuga ou a submissão absoluta.
  • Se os pais educam seus filhos baseados no regime de medo, essas crianças aprenderão desde cedo que a afetividade tem o medo como o seu principal componente. Assim, até as pessoas mais queridas serão capazes de machucá-las.

O amor que é oferecido com condições

  • Ninguém pode amar uma criança dependendo do que ela fizer. O amor deve ser oferecido a uma criança apenas por ser nosso filho, por serem eles mesmos com todas as suas nuances, suas grandezas e as suas falhas. O amor deve ser incondicional e nunca com base nas realizações.
  • Tudo isso pode fazer com que a criança se canse de “ter que provar coisas” e desenvolva um desamparo evidente.

Inconsistência dos pais

  • Se uma criança percebe que seus pais não são uma “equipe”, se eles se desprezam, se dizem uma coisa e depois fazem outra, pode ser muito prejudicial. Crescer em um ambiente caótico, dissonante e hostil fará com que seu pequeno se sinta sempre inseguro.
  • A inconsistência educacional gera desamparo.

A educação contra a impotência aprendida

Como já foi observado anteriormente, lembre-se de que cada criança apresentará diferentes necessidades. Inclusive, é possível que mesmo se você tiver duas crianças da mesma idade, uma seja completamente confiante e assertiva e a outra desenvolva o desamparo aprendido. Muitas vezes, o mesmo estímulo e os mesmos padrões educacionais podem provocar comportamentos diferentes nas crianças dependendo da sua personalidade.

De qualquer forma, devemos sempre ser extremamente cuidadosos na nossa educação, tratamento e criação com os pequenos. Estes são alguns dos eixos essenciais que nos ajudarão a evitar o desenvolvimento do desamparo aprendido.

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Motivação para a realização e a auto competência

Desde bem cedo, ensine aos seus filhos que eles podem ser capazes de conseguir o que quiserem. Sempre use palavras apropriadas que alimentem a autoestima (eu confio em você, eu sei que você pode conseguir, eu sei que você merece). Ao mesmo tempo, evite projetar medos, fazer críticas e comparações.

Faça com que seu filho se sinta competente em tudo o que fizer. Tudo isso lhe dará coragem e uma boa percepção de si mesmo.

Lidar com as adversidades

Não é só os adultos que enfrentam a adversidade. Se não a compreendermos e a gerenciarmos desde a infância com os problemas cotidianos, nós também seremos pessoas caracterizadas pelo desamparo aprendido.

  • As crianças devem aprender a desenvolver a responsabilidade, assim como a ter o controle das suas próprias coisas, do seu próprio mundo. Atribua responsabilidades e faça com que tolerem a frustração para que, assim, aprendam a perseverar. O importante é que elas tenham consciência de que não podem ter tudo. Mas que vale a pena lutar por aquilo que quiser e merecer.
  • Ensine as crianças a serem assertivas, a falar em primeira pessoa “eu preciso”, “eu acho”, “eu quero”. Ninguém pode e nem deve ignorá-las. Assim, transmita confiança, alimente sua autoestima e ensine-as a serem donas dos seus destinos, das suas identidades maravilhosas.

Certamente, é um trabalho no qual é preciso investir todos os dias pela felicidade dos nossos filhos.