Por que as crianças imitam o que veem?

21 Julho, 2020
Alguns minutos após o nascimento, as crianças começam a imitar tudo o que veem. Mas por que isso acontece? Por que elas imitam o que veem? Vamos explicar a seguir.

As crianças têm a grande capacidade de imitar o que observam. Poucas horas depois do nascimento, elas começam a imitar os adultos ao seu redor. Por exemplo, se a mãe mostrar a língua, o recém-nascido vai imitá-la com um sucesso notável, executando o mesmo comportamento que observou. Mas por que as crianças imitam tudo o que veem? Qual o motivo desse tipo de comportamento?

Graças à imitação, as crianças adquirem a capacidade de exercitar suas próprias possibilidades de expressão e, indo um pouco mais além, podemos observar como elas começam a se perceber como agentes.

Poderíamos dizer que o lactente começa a experimentar a coincidência do que é percebido com o seu comportamento, de acordo com a teoria da cópia compartilhada ou simulação incorporada (Meltzoff, 2007; Meltzoff & Moore, 1977).

Quando os bebês têm entre 12 e 21 dias de idade, eles podem imitar gestos faciais e manuais. Tal imitação implica que os recém-nascidos possam equiparar seus próprios comportamentos invisíveis com os gestos que veem os outros executando.

A seguir, vamos apresentar uma pesquisa na qual veremos quando as crianças começam a imitar o que veem.

“Não se preocupe porque as crianças nunca te ouvem. Preocupe-se porque elas estão sempre observando você.”

– Robert Fulghum –

as crianças imitam o que veem

Os recém-nascidos imitam os gestos faciais dos adultos

Em um estudo realizado por Meltzoff AN. e Moore MK., foi avaliada a capacidade dos recém-nascidos com idade entre 0,7 e 71 horas para imitar 2 gestos faciais adultos: abertura da boca e protrusão da língua (mostrar a língua). Os recém-nascidos foram colocados em uma sala pouco iluminada e foram usados equipamentos de vídeo sensíveis à luz infravermelha.

Os registros gravados em vídeo foram avaliados por um observador que não foi informado sobre o gesto mostrado aos bebês. Foram contadas tanto a frequência quanto a duração das aberturas da boca e da protrusão da língua dos recém-nascidos. Os resultados mostraram que os recém-nascidos conseguiram imitar os dois modelos adultos.

Esse estudo sugere que, provavelmente, isso se deve a três possíveis mecanismos subjacentes a esse comportamento imitativo precoce: aprendizagem instrumental ou associativa, mecanismos de liberação inata e pareamento intermodal ativo, ou seja, a capacidade de reconhecer estímulos inicialmente codificados em uma modalidade sensorial através de uma modalidade diferente (por exemplo, apenas tocando os objetivo sem ver, apenas ver sem tocar).

“A imitação é a forma mais sincera de lisonja.”

– Charles Caleb Colton –

As crianças imitam o que veem: por quê?

As crianças imitam o que veem e isso se deve aos neurônios-espelho, descobertos por Giacomo Rizzolatti. Os neurônios-espelho são um tipo particular de neurônio que os humanos possuem e que são ativados quando uma pessoa executa uma ação, mas também quando essa pessoa observa uma ação semelhante executada por outra pessoa.

Esses neurônios fazem parte de um sistema de redes neurais que permite a percepção execução-intenção-emoção.

as crianças imitam o que veem

Quando paramos para observar outra pessoa, o simples movimento de sua mão, pé ou boca ativa as mesmas regiões específicas do córtex motor, como se o observador estivesse fazendo os mesmos movimentos. Mas o processo vai além da simples reprodução de um movimento latente semelhante pelo observador.

O sistema integra em seus circuitos neurais a atribuição/percepção das intenções dos outros, conforme explicado pela teoria da mente.

A compreensão e a ação interpessoal se baseiam na captação de intenções e motivos dos comportamentos dos outros. Para isso, os circuitos neurais simulam as ações que observamos subliminarmente, permitindo, assim, a identificação com as outras pessoas.

Dessa maneira, ator e observador estão em estados neurais muito semelhantes, como se estivessem executando as mesmas ações, captando as intenções ou sentindo as mesmas emoções.

Os neurônios-espelho e o desenvolvimento

Somos seres sociais, e nossa sobrevivência depende da compreensão das intenções e emoções que traduzem os comportamentos aparentes dos outros. Os neurônios-espelho nos permitem compreender a mente de nossos semelhantes, não através do raciocínio conceitual, mas diretamente, sentindo sem ter que pensar.

Os sistemas de neurônios-espelho possibilitam a aprendizagem de gestos por imitação: sorrir, andar, falar, dançar, jogar futebol etc., e também a sensação de que caímos quando vemos outra pessoa no chão, a dor que sentimos quando alguém chora, a alegria compartilhada, entre outros.

“Seja coerente com o que você diz e faz, e lembre-se de que a criança irá incorporar na própria vida seus comportamentos, mais do que suas palavras. Se você quer que seu filho seja respeitoso e gentil, você deve ser o primeiro.”

– Elsa Punset –

  • Adrian Serrano, J. E. (2008). El desarrollo psicológico infantil. Áreas y procesos fundamentales (Vol. 27). Publicacions de la Universitat Jaume I.
  • García García, E., González Marqués, J., & Maestú Unturbe, F. (2011). Neuronas espejo y teoría de la mente en la explicación de la empatía. Ansiedad y estrés17(2-3), 265-279.
  • Meltzoff, AN., & Moore, MK. (1977). Imitation of Facial and Manual Gestures by Human Neonates. Science, 198, 75-78.
  • Meltzoff, AN y Moore, MK. (1983). Los recién nacidos imitan los gestos faciales de los adultos. Desarrollo infantil , 702-709.
  • Uríbarri Bilbao, G., Cortina Orts, A., & Triviño Mosquera, M. (2014). Neurociencia, neuroética y biética. Universidad Pontifica Comillas.