Privação afetiva: causas e consequências

A falta de afeto por parte dos adultos para com as crianças desempenha um papel importante no seu desenvolvimento.
Privação afetiva: causas e consequências

Última atualização: 12 fevereiro, 2022

A privação afetiva é um fato que nenhuma criança deve vivenciar ao longo de sua vida. Desde o nascimento, as crianças precisam sentir o carinho de seus pais. Essa é a forma através da qual elas adquirem autoestima e a segurança necessária para alcançar sua autonomia pessoal.

No entanto, há momentos em que crianças e adolescentes vivenciam situações de privação afetiva. Essa carência afetará várias áreas de seu desenvolvimento.

Privação afetiva: causas e consequências

Situações repetidas de privação afetiva durante a infância podem gerar diversos transtornos psicológicos e psicopatológicos na criança que se manifestarão durante a infância e, ocasionalmente, poderão afetar a adolescência e até a idade adulta. Por isso, é fundamental que, desde os primeiros meses de vida, a criança desenvolva uma figura de apego segura e sinta o afeto de seus pais.

O que é privação afetiva?

A privação afetiva indica a situação em que se encontra uma criança que sofreu ou sofre a privação da relação com sua mãe, ou um substituto materno, e que sofre com o déficit de atenção afetiva necessária desde cedo em sua vida. No entanto, isso não significa que a privação afetiva e emocional da criança seja completamente nula. Isso seria impossível.

Significa que a criança não tem experiências suficientes, nem em quantidade nem em qualidade, de afeto, carinho ou emoções agradáveis. Nessa situação, o pequeno se sente indesejado, não aceito e inseguro. Essa carência afetiva afetará o desenvolvimento emocional, físico e psicológico da criança. Consequentemente, seu comportamento declinará em comportamentos sociais e emocionais inadequados e conflitantes.

Menina abraçando um ursinho de pelúcia como sinal da privação afetiva.

Portanto, é de vital importância que o pequeno sinta o carinho e o amor de seus pais. Esse é o caminho para adquirir sua autoestima e a segurança necessária que lhe permitirá alcançar sua autonomia pessoal. Mas nem sempre acontece assim.

Quais são as causas?

A privação ou carência emocional pode ser causada por diversas situações no ambiente familiar da criança. Os mais frequentes são:

  • Abandono por negligência.
  • Hospitalização.
  • Pais que se divorciam e se reúnem com outros parceiros em ocasiões repetidas e transitórias.
  • Gravidez indesejada.
  • Famílias disfuncionais em que há problemas de abuso, ciúme, toxicodependência, prostituição, etc.
  • Agressão física e emocional contra crianças.
  • Ambiente familiar deteriorado, com frequentes disputas entre os pais na frente dos filhos.
  • Pais severos ou moralistas que provocam crises constantes ou estados contínuos de ansiedade na criança.
  • Pais muito tolerantes cujos filhos não estão sujeitos a regras.

Outra causa de carência afetiva, embora possa não parecer, é a atual falta de tempo dos pais por motivos de trabalho. Para muitos pais, é mais importante manter seus filhos satisfeitos materialmente do que gastar tempo proporcionando amor e carinho.

De qualquer forma, qualquer que seja a causa da privação afetiva, causará danos à criança que repercutirão em seu desenvolvimento, sua personalidade e suas relações sociais.

Quais consequências pode provocar nas crianças?

A falta de afeto por parte dos pais ou cuidadores pode causar diversos problemas nas crianças, dentre os quais podemos citar atrasos no crescimento e distúrbios no desenvolvimento motor, cognitivo e social.

Esses distúrbios serão mais ou menos graves nas crianças, dependendo de vários fatores. Entre os mais significativos estão a idade da criança, a duração da privação emocional e o tipo de emoção da qual ela é privada.

Menino triste e pensativo, inclinando-se sobre a mesa.

Assim, fazendo uma compilação de vários autores, distinguem-se três tipos de consequências:

Afetivas

  • Ansiedade de separação ou abandono: a criança teme que os outros retirem seu afeto. Ela  tem a impressão de que algo fundamental está faltando. Em geral, não deseja estabelecer vínculos afetivos por medo de perder novamente o afeto do outro.
  • Avidez afetiva: a criança exige sem limites o afeto dos outros. Ela duvida das intenções dos outros e sempre entende os fatos de forma ambígua.
  • Agressividade reativa: a ambição e o medo de perder o afeto dos outros é tão intenso que tudo parece uma ameaça de frustração. A criança faz os outros pagarem por seus sofrimentos passados (reais ou imaginários) de mil maneiras. Além disso, ela constantemente testa o afeto dos outros.
  • Atitude passiva: o pequeno se deixa amar, mas não ama. É egocêntrico e quer ser amado. Por sua vez, é passivo e dependente, esperando continuamente receber dos outros.
  • Sentimentos de inutilidade ou baixa autoestima: geralmente a criança se considera um fracasso e se despreza. Ela até duvida de si mesma sobre despertar afeição ou simpatia nos outros. Por essa razão, sente uma grande insegurança em si mesma.
  • Intolerância à frustração: as proibições ou limites impostos pelos outros são vivenciados como agressão ou injustiça. A criança também tem dificuldade em aceitar limites.

Somáticas

  • Atraso no crescimento: a criança pode ter um atraso no crescimento físico. Ela pode até ficar abaixo da média para sua idade. O sentimento de abandono e tristeza explica porque a criança pode ter menos interesse por comida e esteja sempre mal alimentada.
  • Propensão a doenças e acidentes: a criança pode ter menos resistência a infecções. Seus mecanismos de defesa imunológica são menos desenvolvidos devido à fraca pulsão de vida.
  • Alteração do esquema corporal: a falta afetiva não permite que a criança desenvolva uma imagem corporal harmonicamente organizada. Dificuldades na coordenação motora (por exemplo, nos esportes) são observadas. E, em algumas ocasiões, apresentam sintomas de hiperatividade.
    Menina triste e preocupada sentada no sofá.

Cognitivas

  • Atraso intelectual: esse atraso se deve à falta de estímulo sociocultural durante a primeira infância. A criança afetivamente carente geralmente tem um QI abaixo da média. Por sua vez, apresentará dificuldades de aprendizagem e baixo rendimento escolar.
  • Distúrbios da linguagem: normalmente, a criança apresenta algum atraso no desenvolvimento da linguagem. Ela também tem problemas em sua articulação. Seu vocabulário e comunicação são pobres.
  • Desorientação temporal: a criança não sabe mensurar o tempo objetivamente. Ela considera os momentos agradáveis muito curtos e os momentos desagradáveis muito longos.

Outras causas de privação emocional

Atualmente existem conflitos de guerra, conflitos migratórios e conflitos derivados da pandemia que complicam os cenários afetivos. As crianças e adolescentes encontram-se, assim, em condição de extrema vulnerabilidade, enfrentando:

Conflitos bélicos

São centenas de conflitos que abalam o planeta e em todos eles há atores indefesos que sofrem privações afetivas. Seja porque os adultos participam diretamente do campo de batalha ou porque, como civis, fazem parte dos objetivos territoriais em disputa.

A migração e o deslocamento enchem de problemas o quotidiano da família e fica muito difícil criar condições para dar afeto e esperança de forma sustentada. As crianças e os adolescentes são os primeiros afetados por um conflito armado , direta ou indiretamente, colocando em risco sua saúde geral e sua vida.

A migração

A emigração parental desperta naqueles que ficam ou saem sentimentos de culpa, medo da perda ou incerteza e angústia profunda. As crianças vivenciam os rastros emocionais deixados pela migração parental, afetando principalmente sua saúde mental. A migração forçada abala as bases afetivas do desenvolvimento e afetará seu futuro escolar e seu desempenho social.

A pandemia

O lar é fundamental na defesa e proteção da criança. No entanto, fatores de estresse relacionados ao confinamento ameaçam essa defesa. As restrições de movimento, viagens e trabalho são complicadas por preocupações com a própria saúde, segurança alimentar e dificuldades econômicas.

Soma-se a tudo isso o fato de muitas crianças ficarem restritas ao espaço de suas casas, com parentes violentos e de alguma forma longe da vista das pessoas ou instituições que poderiam ajudá-las.

Sobre a privação afetiva em crianças

Segundo Vargas (2002), socialmente, as crianças têm dificuldades de se relacionar com os outros. Ela desenvolvem poucas habilidades sociais, são dependentes, precisam de constante reconhecimento e aprovação de suas ações. Da mesma forma, introjetam e projetam qualidades que lhes são estranhas e as assumem como suas, manifestam extrema complacência, submissão, hostilidade e agressividade.

Em suma, como vimos, são várias as causas. Por isso, é muito importante cuidar do carinho que damos aos nossos filhos. As consequências não são todas temporárias. Algumas delas acompanharão a criança durante a adolescência e até na idade adulta.

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