Disforia de gênero na infância: como agir

A disforia de gênero pode se manifestar desde a infância, por isso é essencial que você conheça seus sinais para ajudar seus filhos. Descubra tudo aqui.
Disforia de gênero na infância: como agir

Última atualização: 22 Outubro, 2021

Nos últimos tempos, as consultas para possíveis casos de disforia de gênero na infância aumentaram até quase quadruplicar. Trata-se de uma realidade complexa, pouco compreendida e capaz de gerar desconforto em crianças e seus familiares.

Apesar da confusão e da incerteza que isso gera, sensibilidade, prudência e avaliação individualizada são os elementos fundamentais para evitar maiores danos a essas crianças.

Felizmente, a cada dia a sociedade se torna mais consciente da diversidade de identidades e orientações sexuais. Quando falamos de um assunto tão crucial como a construção da própria identidade, não podemos dar por certa uma única evolução, sendo necessário acompanhar o progresso da criança com respeito e empatia.

O que é a disforia de gênero na infância?

A disforia de gênero é caracterizada por uma sensação de desconforto ou insatisfação com o próprio sexo.

As pessoas que a apresentam se identificam com o sexo oposto àquele determinado pelo seu sexo biológico. Ou seja, estão convencidas de que sua identidade sexual não corresponde ao seu sexo anatômico.

É importante entender que se trata de uma questão de identidade e não de orientação sexual. Em outras palavras, o fato de uma criança (ou adulto) se identificar com o sexo oposto não determina suas preferências sexuais e românticas. Apenas indica como a pessoa se sente a respeito de si mesma.

Embora não aconteça em todos os casos, grande parte delas começa a apresentar sintomas de disforia de gênero desde a infância ou adolescência.

Essas manifestações preocupam os pais e geralmente levam à busca de aconselhamento profissional. No entanto, é preciso lembrar que nem todos os sinais estão presentes em todos os casos e que a presença desses sinais não indica necessariamente uma disforia de gênero.

jogo de identidade menina pai disforia gênero

Principais manifestações da disforia de gênero

A avaliação individual é fundamental para definir a discordância quanto ao sexo, mesmo quando há sinais característicos. Dentre eles, destacam-se:

  • Manifestações verbais recorrentes (ou desejos constantes) de pertencer ao sexo oposto.
  • Preferência por brinquedos, jogos e atividades típicas do outro gênero. Por exemplo, as meninas escolhem esportes e jogos violentos, e os meninos mostram interesse em bonecas e brincadeiras relacionadas ao âmbito doméstico.
  • Adoção de atitudes, modos e formas de expressão próprias do outro gênero. Por exemplo, a escolha de roupas, penteados e a aparência física.
  • Ao selecionar roupas ou brincar de jogos de interpretação de papéis, os personagens escolhidos pertencem ao gênero com o qual a criança se identifica.
  • Preferências por se relacionar com pares do sexo oposto.
  • Rejeição dos órgãos genitais, desejo de trocá-los ou fazê-los desaparecer.
  • Medo intenso da adolescência, pois é o momento em que as características sexuais secundárias geram uma imagem física típica do sexo que é rejeitado.

Detecção precoce e diagnóstico

A detecção precoce é essencial para evitar sofrimento emocional significativo na criança. Contar com aconselhamento familiar e profissional e apoio ajudará a criança a encarar a confusão e a incerteza da melhor maneira possível.

Da mesma forma, permitirá que ela adquira as ferramentas necessárias para lidar com o possível assédio ou rejeição que possa estar sofrendo. Por isso, é importante não subestimar as manifestações infantis de desacordo ou encará-las como meras tentativas de chamar a atenção.

É necessário esclarecer que muitas vezes certos comportamentos “atípicos” são esperados em algumas idades, sem que signifiquem uma disforia de gênero. Por exemplo, o fato de um menino gostar de se maquiar ou pintar as unhas ou de uma menina escolher jogar futebol não implica necessariamente um problema de identidade.

Às vezes, estereótipos e papéis de gênero perpetuados pela sociedade não incentivam a crianças a brincar, explorar e se expressar livremente. Mas esse diagnóstico não ocorre se essas manifestações não geram sofrimento.

Observar a evolução e acompanhar com respeito

conceito respeito transgênero lgtb mão mãe filho bandeira cores

Segundo as evidências, apenas uma parte das crianças que manifestam inconformidade com seu gênero mantém essa disforia na idade adulta e opta pela mudança de sexo.

Alguns estudos mostram que vários desses pequenos evoluem para a homossexualidade, sem concomitante disforia de gênero. Por outro lado, outros manifestam uma orientação heterossexual sem apresentar essa disforia.

Por tudo isso, é fundamental atuar com cautela, fazer uma avaliação individualizada e observar a evolução de cada criança.

No caso em que o diagnóstico seja confirmado, o tratamento adequado ajuda a criança a reduzir o seu desgaste emocional. Além disso, também ajuda a passar pelas mudanças hormonais da adolescência, uma vez que pode ser evitado o desenvolvimento de algumas características sexuais secundárias próprias do gênero.

Se você acha que seu filho pode estar passando por essa experiência, procure orientação profissional o mais rápido possível. Essa é a melhor forma de acompanhá-lo com respeito e amor.

Pode interessar a você...
Os brinquedos não escolhem o gênero
Sou Mamãe
Leia em Sou Mamãe
Os brinquedos não escolhem o gênero

Quem define os estereótipos? Quem diz que um menino não pode gostar de Peppa Pig ou que uma menina não pode gostar de carros?



  • Fernández, M., Guerra, P., & Méndez, M. (2014). La disforia de género en la infancia en las clasificaciones diagnósticas. Cuadernos de medicina psicosomática y psiquiatria de enlace, (110), 25-35.
  • Hurtado-Murillo, F. (2015). Disforia de género en infancia y adolescencia: Guía de práctica clínica. Rev Esp Endocrinol Pediatr6(1), 45-52.
  • Asenjo-Araque, N., García-Gibert, C., Rodríguez-Molina, J. M., Becerra-Fernández, A., Lucio-Pérez, M. J., & GIDSEEN, G. (2015). Disforia de género en la infancia y adolescencia: una revisión de su abordaje, diagnóstico y persistencia. Revista de psicología clínica con niños y adolescentes2(1), 33-36.