O encontro amoroso com o puerpério

· 17 de abril de 2017

Chama-se puerpério ou quarentena o período de 40 dias após o parto, momento que se constitui como uma etapa de descoberta e de readaptação à nossa nova realidade física e psicológica.

Devemos saber que embora hoje em dia o conceito seja outro, o respeito com esse período deriva de sociedades passadas, em que as mulheres tomavam conta dos bebês e da mãe recente de modo comunitário, enquanto os homens se encarregavam de buscar alimento.

Contudo, a realidade social que vivemos atualmente é muito distinta. Muitas vezes vivemos isolados ou longe de nossa família, o que impede que tenhamos o apoio e ajuda para tarefas domésticas simples que os pais recentes precisam.

Ainda assim, mesmo que a situação atual não nos permita manter essa rede de apoio, não quer dizer que não precisemos. De fato, todas as puerpérias precisam de sustento social para não desmoronar ante as feridas físicas e emocionais derivadas do parto.

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Cuidarmos de nós mesmas no puerpério é garantir a felicidade familiar

Temos que saber que devemos nos recuperar e recompor nossas situações sociais, biológicas e psicológicas. A constituição “mamãe-bebê” é sinônimo de conviver com o caos mais absoluto e de “se tornar um pouco louca“.

Durante o puerpério cada sensação nova assusta a nova mamãe, quem nem sempre está feliz, nem sempre está alegremente disposta a dar o peito a seu filho às 5 da manhã.

Por isso, a mãe nesse momento precisa de apoio emocional daqueles que a amam, e a permissão para abandonar o mundo racional dos horários, as obrigações e as decisões lógicas para se submergir em um sono e no abandono do mundo material durante certos momentos.

Essa é uma das sensações que a mãe puérpera mais sente falta e, sem dúvida, é o sacrifício mais difícil de se equilibrar nesse duro processo de compreensão com você mesma, com seu filho e com os outros.

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A perda de identidade durante o puerpério

Enfrentarmos o novo ambiente de nossa recente identidade como mamãe-bebê significa que devemos “sair fora” do mundo que até agora conhecíamos, ou com o que até agora compartilhávamos regras.

Isso significa ter que aceitar, diante da nossa própria perplexidade, que o trabalho, as amizades, e os interesses que até então consumiam nossa energia se converteram em lembranças distantes, afogadas pelo choro do nosso bebê.

Tudo isso acontece interiormente como uma espécie de duelo, já que acabamos acreditando que nunca mais voltaremos a ser essas mulheres maravilhosas, ativas, encantadoras, inteligentes e dedicadas, que construímos por tanto tempo.

Isso acontece porque, em primeiro lugar, além da desestruturação física e emocional a que nos submetemos também perdemos o contato com nossos lugares de referência (o lugar de trabalho, nosso espaço de estudo, as zonas de ócio ou de diversão que mantínhamos, etc…).

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Ao invés disso, estamos submetidas a uma rotina que sem querer nos absorve, gerando a sensação de que perdemos o trem e nunca mais voltaremos a esse mundo que conhecíamos.

Durante a quarentena, e algum tempo depois viramos pessoas com uma única função: ser mamãe-bebê. Algo que nos faz contemplar o mundo com os olhos do bebê e não reconhecermos nós mesmas quando nos olhamos no espelho.

De fato, a forte sintonia ou vínculo com nossa faceta maternal nos faz sentir extremamente sensíveis ou emotivas, com o cérebro difuso, os sentimentos confusos e distorcidos.

Na medida em que compreendermos isso, saberemos que o apoio afetivo não é um luxo para a mãe puerpéria, senão uma prioridade. Por isso, devemos convidar as pessoas mais próximas a entender isso, assim como oferecermos recursos emocionais que façam do puerpério um lugar de encontro com nós mesmas e com os outros.