A importância do luto após um aborto

19 de outubro de 2019
Negar-se a enfrentar a dor da perda só a tornará crônica. Passar pelo luto é a única maneira de se curar.

Sofrer a perda de um filho não nascido é uma das situações mais dolorosa pelas quais uma mulher pode passar. Elaborar o luto após um aborto é fundamental para poder assimilar o acontecimento e fazer com que as consequências a nível psicológico não se agravem.

O aborto: um tema tabu

Por algum motivo, na sociedade atual continuamos isolando a perda gestacional com um muro de silêncio. O aborto é, infelizmente, um acontecimento realmente comum, que atinge uma de cada quatro gestações. Todavia, as mulheres que passaram por um (e as pessoas de seu círculo mais próximo) costumam manter o fato sob sigilo.

Desse modo, quando uma mulher passa por um acontecimento dessa magnitude, não encontra referentes próximos para poder sentir-se identificada. Começa a pensar que há algo de errado com ela e decide, novamente, silenciar, provocando o círculo vicioso.

A situação não é melhor para aquelas mulheres que passaram por um aborto provocado, pois, ao que mencionado anteriormente, acrescenta-se ainda o fato de se ver criminalizada pela sua decisão.

o luto após um aborto

Impacto físico e psicológico

O aborto significa enfrentar enormes mudanças em um curto período de tempo. Mudanças para as quais a mulher não está preparada. Em primeiro lugar, a mulher terá que encarar o impacto físico, ou seja, as grandes variações hormonais pela qual o corpo vai passar e os seus sintomas associados.

No nível psicológico, apesar de estatisticamente ser um acontecimento frequente, não deixa de ser devastador. Com a morte do filho morre também o sonho, todas as expectativas que haviam sido depositadas nessa nova vida.

Assim, não se perde apenas esse ser que era gestado no interior do corpo, perde-se também o papel de mãe e toda a construção social que havia sido gerada em torno dele.

O luto após um aborto

O aborto constitui uma perda em todo sentido e, como tal, é necessário elaborar um luto para poder assimilá-lo de modo saudável na sua vida.

Apesar do menosprezo com que a sociedade enxerga a perda gestacional, é importante que os pais (sobretudo a mãe) sejam conscientes de que estão enfrentando um período difícil que deverá ser superado do modo mais racional possível.

Diante de toda essa dor, muitas mulheres optam por soluções rápidas, como voltar a engravidar logo ou negar completamente a perda. Longe de facilitar o processo, negar-se a enfrentar a dor da perda só a tornará crônica, e as consequências continuarão por muitos anos.

Os sentimentos do luto

O luto está impregnado de numerosos sentimentos:

  • Culpa. É um dos sentimentos mais frequente que acompanham o aborto. A mãe, na tentativa de compreender o acontecido, pode culpar a si mesma por não ter cuidado o suficiente de si.
  • Sentimentos de inferioridade e fracasso. Devido ao muro de silêncio, a mãe pode sentir-se menos capaz e menos valiosa que o restante das mulheres, pois não foi capaz de levar a gravidez até o fim.
  •  Tristeza, solidão e incompreensão. É muito provável que as pessoas do entorno mais íntimo não saibam reagir de maneira adequada. Na intenção de dar ânimo ao ser querido, podem vir a tirar importância ao assunto, fazendo, assim, com que a mulher se sinta ainda mais sozinha na sua dor.
  • Angústia e ansiedade. Após uma experiência dessa magnitude, o medo de sofrer um aborto novamente é recorrente, bem como o de não poder engravidar outra vez.
O aborto: um tema tabu

Como elaborar o luto após um aborto?

  1. Permitir-se sofrer o tempo que for preciso. Mesmo que o entorno não compreenda, é imprescindível permitir-se vivenciar todos os sentimentos que esse processo acarreta.
  2.  Evitar encobrir a dor. Não se precipitar com uma nova gravidez, nem ocupar a mente compulsivamente com outros assuntos.
  3.  Expressar-se. Falar com os seres queridos, com o cônjuge ou companheiro, ou buscar um grupo de apoio no qual possa compartilhar os sentimentos.
  4. Realizar um ritual de despedida. Talvez não se possa realizar propriamente um funeral, mas é importante realizar uma despedida simbólica. Além disso, dar um nome a essa criança que não chegou a nascer pode ajudar a dar-lhe um lugar na sua vida.
  5. Lembrar que cada pessoa tem o seu tempo e que o luto não é um processo linear. Haverá altos e baixos, e isso é perfeitamente normal.
  6. Se após um tempo, você percebe que não está progredindo emocionalmente e sente que não é capaz de fazê-lo sozinha, não hesite em procurar ajuda profissional.