O que é um transplante fecal e quando ele é recomendado?

09 Maio, 2020
O transplante fecal busca restaurar o equilíbrio microbiano intestinal. É aplicado em pacientes adultos e pediátricos com sucesso surpreendente. Descubra como ele é feito.

O transplante fecal ou bacterioterapia é um tratamento experimental que gera muita controvérsia. Consiste na transferência do microbioma intestinal de um doador saudável para pacientes que sofrem de uma variedade de doenças associadas a alterações dos micróbios do cólon. Sim, você entendeu corretamente. Trata-se da ingestão de uma porção das fezes de um doador saudável.

Infecção por Clostridium difficile: um caso de sucesso do transplante fecal 

A Clostridium difficile (C. diff) é uma bactéria que vive no nosso meio ambiente. Muitas pessoas têm C. diff nos seus corpos sem problemas. Sabe-se que não é a bactéria em si que causa a doença. 

Somente sob certas condições é que a bactéria libera toxinas, sendo elas as causadoras da doença. Uma pessoa com uma infecção por C. diff pode apresentar diarreia e cólicas abdominais. Em casos graves, a infecção pode causar desidratação, requerer hospitalização e supor um risco à vida.

Em 2018, aproximadamente 10.000 pacientes receberam um transplante fecal nos Estados Unidos. O tratamento não é novo. De fato, existe uma diretriz de prática clínica que o regula desde 2013.

A sua aplicação é indicada para pacientes infectados com C. diff “recorrente ou refratária”. Ou seja, quando a infecção ocorre repetidamente e não responde aos antibióticos. Além disso, a aplicação para casos novos, em adultos e crianças, é permitida desde 2018.

Você sabe o que é o transplante fecal?

A aplicação do transplante fecal para qualquer outra doença que não seja a infecção por C. diff só pode ser feita no contexto de um ensaio clínico.

Como é feito um transplante fecal?

Existem várias maneiras de administrar esse tratamento. A mais comum é por meio de uma colonoscopia, obtendo a doação de um banco de fezes. Esse procedimento geralmente é muito seguro. Foram relatados apenas desconfortos leves, tais como inchaço, gases e febre baixa.

A matéria fecal é originária de um banco de fezes, que opera de maneira semelhante aos bancos de tecidos. Primeiramente, os excrementos dos doadores são examinados em busca de organismos potencialmente causadores de doenças.

No caso da doação de sangue, o sangue do doador também é submetido a exames laboratoriais de rotina para descartar doenças infecciosas. Assim, o banco de fezes fornece o material ideal para realizar o transplante.

Outra opção é o médico realizar o procedimento por meio de doadores que sejam amigos ou parentes dos pacientes. Essa é uma exceção que permite que os médicos usem a sua experiência e julgamento.

A terceira maneira é por meio de ‘produtos à base de fezes’. Isto é, pílulas ou sistemas de administração que oferecem, por exemplo, uma combinação de micróbios, em vez de todo o universo de microrganismos.

Qual é a eficácia do transplante para a infecção por Clostridium? 

Todos os anos, existem mais de 450.000 casos nos Estados Unidos, e as mortes superam 29 mil pessoas. Desses casos, 20% dos pacientes não são curados pelo tratamento com antibióticos e a infecção volta repetidamente.

Nesses pacientes, incluindo casos pediátricos, o transplante fecal tem uma taxa de cura de 80 a 90%, o que significa que a grande maioria será curada das infecções recorrentes com um único tratamento. No entanto, existem alguns pacientes que podem precisar de mais de um transplante.

Quais são as possíveis complicações desse tratamento?

No geral, é um procedimento seguro, bem tolerado e que salva vidas. É importante destacar que não devemos tentar aplicá-lo em casa, pois só deve ser realizado por um médico capacitado, usando material cuidadosamente examinado.

O transplante fecal e a saúde intestinal

Infelizmente, os transplantes fecais vêm com uma dose de risco. As fezes são uma mistura dos nossos resíduos não digeridos com o repertório de micróbios benéficos que estabelecerão uma nova ordem no ecossistema intestinal. No entanto, também haverá bactérias, fungos e vírus ‘menos amigáveis’ ou potencialmente patogênicos.

O transplante fecal para o tratamento de outras doenças

Esse procedimento é usado com relativo sucesso em condições como o diabetes. Em pacientes pediátricos, já foi utilizado para a doença inflamatória intestinal. Em ensaios clínicos, foi utilizado contra doenças hepáticas em estágio terminal, Alzheimer, esclerose múltipla, vários tipos de câncer, asma, alergias e doenças cardíacas.

Todas essas doenças têm sido associadas a alterações nas bactérias que compõem o nosso ecossistema intestinal.

A existência de super doadores de fezes

descoberta de super doadores foi algo surpreendente: pessoas cujas fezes alcançam uma taxa de sucesso talvez duas vezes maior do que a média, em termos da melhora clínica do paciente em tratamento.

  • McDonald, L. C., Gerding, D. N., Johnson, S., Bakken, J. S., Carroll, K. C., Coffin, S. E., … & Loo, V. (2018). Clinical practice guidelines for Clostridium difficile infection in adults and children: 2017 update by the Infectious Diseases Society of America (IDSA) and Society for Healthcare Epidemiology of America (SHEA). Clinical Infectious Diseases, 66(7), e1-e48.
  • Wilson, B. C., Vatanen, T., Cutfield, W. S., & O’Sullivan, J. M. (2019). The super-donor phenomenon in fecal microbiota transplantation. Frontiers in cellular and infection microbiology9, 2.
  • Wang, A. Y., Popov, J., & Pai, N. (2016). Fecal microbial transplant for the treatment of pediatric inflammatory bowel disease. World journal of gastroenterology22(47), 10304. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5175243/