Objetos transicionais: aquele bicho de pelúcia que a criança não larga

16 de outubro de 2019
Os objetos transicionais desempenham um papel importante no crescimento das crianças e na sua separação da mãe.

Todo mundo já viu uma criança com um carinho especial ou um apego em relação a um bicho de pelúcia ou um cobertor. Elas levam esse objeto para todos os lugares e parecem incapazes de viver sem ele. Mas o que esses objetos transicionais realmente significam em termos psicológicos?

O que é um objeto transicional?

O termo foi introduzido pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott para se referir a um objeto que constitui a primeira posse que a criança reconhece como algo separado de si mesma.

Um objeto transicional é um objeto material no qual as crianças depositam certo apego. Elas mostram um carinho especial por esse objeto em particular, sempre o mantêm por perto e geralmente recorrem a ele em momentos de tristeza ou quando estão com sono.

A postura das crianças em relação a esse objeto não é lúdica, mas sim de posse: elas o seguram, chupam, beijam, pressionam o objeto contra o corpo ou até mesmo o jogam no chão.

A posse de um objeto transicional é um comportamento completamente normal e que faz parte de um desenvolvimento psicológico adequado para a criança. Esse objeto cumpre importantes funções no seu processo de separação da mãe e de autoidentificação como um ser individual.

Objetos transicionais

No entanto, uma vez que esse processo é diferente para cada pessoa, nem todas as crianças desenvolvem essa relação com um objeto transicional.

Quais são as características dos objetos transicionais?

Há objetos transicionais dos mais variados, dependendo de cada criança. No entanto, todos esses objetos de apego compartilham algumas características básicas.

  • Têm uma textura agradável, geralmente é macio e suave. Isso está diretamente relacionado com a teoria da mãe macia, segundo a qual todos os filhotes têm a necessidade inata de se apegar a uma figura macia para encontrar abrigo e proteção.
  • São escolhidos pela criança arbitrariamente. Esse objeto não pode ser imposto, já que a criança vai escolhê-lo sozinha, mesmo que nos pareça que ela tem outros brinquedos mais bonitos.
  • São insubstituíveis. Assim como não pode ser imposto externamente, ele também não pode ser substituído por outro.
    • Caso seja perdido, a criança sentirá uma profunda tristeza que não será remediada tentando aproximá-la de outro objeto. É somente a própria criança quem decide se apegar ou não a outro objeto.
  • Têm um cheiro particular, uma identidade olfativa que ajuda a criança a percebê-lo como algo familiar. Por isso, não é aconselhável lavá-lo.
  • Eles são inseparáveis. A criança levará o seu precioso objeto para todos os lugares e ele também será essencial na hora de dormir. Não devemos tentar tirá-lo da criança, porque vamos gerar um grande sentimento de angústia e tristeza. Com o passar do tempo e o crescimento, o objeto vai perder a relevância gradualmente.

Quais são as funções cumpridas pelos objetos transicionais?

Em primeiro lugar, esse objeto representa a transição da criança da diferenciação com a mãe para a aceitação dela como algo externo.

Renunciar à posse ilimitada da mãe é algo difícil para a criança, ao entender e aceitar que se trata de dois seres independentes e separados. E que nem sempre a mãe será capaz de atender a 100% das suas necessidades.

O objeto ajuda a criança a passar pela transição, substituindo um pouco da segurança proporcionada pela mãe por meio do objeto. Ele representa o apego que o bebê sente pela mãe e supre algumas funções quando ela está ausente.

Assim, constitui uma fonte de prazer e segurança que ajuda a criança a controlar a ansiedade por separação, além de ajudá-la a ser emocionalmente independente e enfrentar as situações.

funções cumpridas pelos objetos transicionais

Em que momentos o objeto transicional é mais importante?

Essas importantes funções psicológicas se tornam evidentes principalmente em momentos de tristeza, tédio ou na hora de dormir. É nessas situações que a criança mostrará mais necessidade de estar perto do seu objeto.

Também é possível que diante de certos eventos importantes, tais como a chegada de um irmãozinho ou o primeiro dia na escola, a criança retorne temporariamente ao objeto transicional que já havia deixado para trás.

As crianças geralmente se apegam a um objeto entre os quatro e os seis meses de vida. E essa relação geralmente dura até aproximadamente os três ou quatro anos.

Uma vez que a criança adquire controle sobre as suas emoções e se torna mais independente, a relação com o objeto passa a ser lúdica ou é naturalmente substituída por outros interesses.

  • Harlow, H. F. (1962). Development of affection in primates. Roots of behavior: genetics, instinct, and socialization in animal behavior/by thirty-one authors; edited by Eugene L. Bliss.
  • Winnicott, D. W. (1967). Objetos y fenómenos transicionales : Un estudio sobre la primera posesión no Yo. Recuperado de https://www.pep-web.org/document.php?id=revapa.024.0817a