Por que minha filha fala na terceira pessoa?

Sua filha usa a terceira pessoa para falar de si mesma? Essa tendência é comum em crianças pequenas, mas depois de certa idade pode indicar a presença de distúrbios importantes. Contamos mais sobre isso.
Por que minha filha fala na terceira pessoa?
Elena Sanz Martín

Escrito e verificado por a psicóloga Elena Sanz Martín.

Última atualização: 18 dezembro, 2022

A aquisição da fala é um marco importante no desenvolvimento infantil. As habilidades de comunicação das crianças evoluem e avançam à medida que elas crescem e interagem com o ambiente. No entanto, às vezes pode haver atrasos ou estagnação que soam como alertas. Por exemplo, se sua filha fala na terceira pessoa sobre si mesma, talvez seja necessário consultar um profissional para determinar o motivo.

Geralmente, os seres humanos falam na primeira pessoa, ou seja, usamos o pronome “eu” para expressar nossos desejos, experiências e opiniões. Quando uma criança se refere a si mesma na terceira pessoa, ela geralmente usa os pronomes “ele”, “ela” ou diretamente seu próprio nome como sujeito da frase. Esta anomalia é marcante e pode se dever a várias causas. Por isso, a seguir explicamos quais são as mais comuns para que você possa ajudar sua filha.

Sua filha fala na terceira pessoa?

Para identificar se sua filha fala na terceira pessoa, pergunte-se o seguinte: ela costuma usar frases para falar de si mesma, como “Maria quer mais doce”, “Ela não quer tomar banho” ou “Ela está com sono”? Esse tipo de expressão verbal é comum nos primeiros anos de vida das crianças. Desde que começam a se comunicar até aproximadamente os três anos de idade, são relativamente frequentes. Porém, a partir dos 4 anos de idade, esse sinal pode nos alertar para um grande problema.

Muitos pais começam a prestar atenção a essas manifestações quando seus filhos começam a frequentar a escola. É aqui que se observam as diferenças em relação a outros pequenos da mesma idade. E é possível que, embora sua filhinha tenha feito progressos significativos em suas habilidades de comunicação, ela ainda use a terceira pessoa. A que pode se dever esse comportamento?

Antes de tudo, é fundamental levar em conta a idade, pois esse modo de expressão pode fazer parte do processo de amadurecimento. Se a menina já iniciou a educação pré-escolar e continua a usá-lo, devemos nos perguntar se ela pode imitar o que observa em casa. Isso porque é comum adultos usarem esse tipo de linguagem com crianças. Por exemplo, se dissermos a elas “A mamãe está cansada” ou “O papai não pode brincar com você agora”, é provável que elas repitam essa formulação ao falar sobre si mesmas, portanto, mudar esse aspecto pode ajudar.

Se sua filha fala na terceira pessoa e também apresenta alucinações, delírios, distúrbios de linguagem ou comportamento desorganizado, você deve procurar ajuda profissional, pois pode ser um caso de psicose infantil.

Razões pelas quais sua filha fala na terceira pessoa

Uma vez revisados os aspectos anteriores, é importante considerar que existem algumas causas médicas que podem levar as crianças a falar na terceira pessoa. Principalmente, psicose ou algum grau de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Psicose infantil

A psicose infantil engloba um amplo grupo de transtornos que têm uma base comum: a criança é incapaz de diferenciar sua realidade interna da externa. Assim, percepções errôneas, pensamentos ilógicos e fantasias são tomados como verdadeiros e causam confusão e interferência no cotidiano da criança.

Entre o extenso conjunto de sintomas que podem ocorrer, aparecem os distúrbios comunicativos, como falar de si mesmo na segunda ou terceira pessoa. Ou seja, a criança pode dizer “Você está com fome” ou “Ela está com fome” em vez de expressar na primeira pessoa como seria de se esperar (“Estou com fome”). Isso pode indicar que o pequeno tem dificuldade em reconhecer sua própria identidade e se diferenciar dos outros indivíduos.

Você deve saber que a psicose é rara na população infantil e que geralmente aparece na segunda década de vida. Mesmo assim, alguns sintomas prodrômicos da psicose infantil podem se manifestar já aos três anos de idade.

Transtorno do Espectro Autista

O TEA pode se apresentar em graus muito diferentes e afetar cada criança de maneira diferente. Mesmo assim, falar de si mesmo na terceira pessoa, na segunda pessoa ou com perguntas é comum em quem sofre de TEA, por isso constitui um importante sinal de alerta.

Alguns bebês já mostraram sinais antes, mas para muitos pais essa pode ser a primeira indicação clara de que algo está errado. No entanto, é conveniente analisar se outras manifestações como as seguintes estão presentes:

  • Ecolalia: é a imitação de sons, palavras ou frases imediatamente após ouvi-los.
  • Expressa-se de forma impessoal ou constrói frases em que não há sujeito para realizar a ação. Por exemplo, a pessoa diz “Bolsa no armário” para indicar que deseja colocar ou tirar a bolsa do armário ou que outra pessoa a colocou lá.
  • Movimentos estereotipados e repetitivos.
  • Interesses restritos.
  • Dificuldades em se relacionar socialmente com os pares.
É comum que uma criança com transtorno do espectro do autismo fale sobre si mesma na terceira pessoa, segunda pessoa ou com perguntas.

Se sua filha fala na terceira pessoa, procure ajuda profissional

Em suma, os motivos pelos quais sua filha se refere a si mesma na terceira pessoa podem ser diversos e nem todos são igualmente graves. É possível que seja um simples atraso na comunicação ou que haja algum distúrbio importante que requeira tratamento. De qualquer forma, somente profissionais qualificados podem chegar a um diagnóstico e orientar sobre as intervenções mais adequadas.

Pediatras, neurologistas, psiquiatras, psicólogos infantis e fonoaudiólogos são alguns dos especialistas que podem ajudar a determinar as causas dessa anomalia e orientar as famílias sobre o que fazer. Portanto, em caso de dúvida, busque orientação e respostas. A detecção e os cuidados precoces são essenciais.

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